Henrique Pedro

Agora que os calos das minhas mãos florescem em rosas - 23Jun2018 15:35:00




Agora
que os calos das minhas mãos florescem em cravos
e rosas
que o suor do meu rosto frutifica em cerejas
e gotas do meu sémen geraram filhos
muito queridos

Agora que as minhas ideias se concertam em poesias
que os meus afectos encontram ecos em mil amizades
e aprendi a partilhar dores e alegrias

Agora
que admito que as minhas derrotas
foram justas vitórias de outrem 
e cuido que as minhas vitórias
não sejam a humilhação de ninguém

Agora que conheço o fascínio de amar
que ainda não perdi o encanto de sonhar 
e aprendi a converter angústias em preces

Agora
que da vida já não espero outras benesses
que não as de viver com verdade e amor

Agora já posso dizer
com fervor:
- Vale bem a pena viver!
Bem hajas, ó Criador!

 
in ANAMNESIS (1.ª Edição: Janeiro de 2016)






Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/agora-que-os-calos-das-minhas-maos.html

Nada, ninguém e mais alguém - 22Jun2018 20:21:00




Poderá ser só oxigénio
e vapor de água
pairando etéreos sobre as colinas
arroteadas
em que medram videiras
rejuvenescidas
oliveiras prateadas
amendoeiras floridas no alvor da Primavera

Poderá ser só o suor
que o corpo transpira
e se evapora em diáfana nebulosidade
que reflecte e refracta com verdade
o vapor de amor
que do espírito se evola
e se transmuta em telúrica alegra

Poderá ser só o ar
que espírito respira
e pelos pulmões expele
condensado em bafo de poesia

Poderá ser só tudo isso 
tudo que o poeta só
almeja

Vapor de amor e de água
também
nada que se veja

Mágoa de alguma alma enamorada
submersa na poética neblina
aspergida por aí
e por além

Poderá ser só nada
ninguém
e mais alguém

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)



Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/nada-ninguem-e-mais-alguem.html

Anjo angustiado - 21Jun2018 14:29:00



Anjo angustiado

Deito-me sobre a relva
Em posição decúbito dorsal
Na ilusão fundamental
Inconsistente pensamento
De que ocupo sempre o centro do Firmamento
Vá para onde for
Deite-me com quem me deitar

Percebo a Via Láctea à minha esquerda
No céu límpido
Semeado de estrelas

Da direita chega-me o perfume das tílias
Floridas neste início quente de Verão

Fixo a vista na Estrela Polar
Aí me prendo a sonhar

Em breve a minha angústia
Alaga todo o Universo visível
E mais os invisíveis

Acabo por adormecer
Como um anjo angustiado

in Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais-2009)




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/anjo-angustiado.html

Apalpando a alma - 19Jun2018 11:42:00



Apalpando a alma

Afago a cabeça

Mimoseio-me 
numa tentativa de me encontrar
mas não me encontro
nem é a mim que tacteio

Não me enxergo
no crânio escalvado
acabado de sair do barbeiro

Mas sinto uma sensação
suprema
que me percorre o corpo inteiro
me pacifica
e me acalma o coração
embora esprema
a Razão

Transfiro-me para as cabeças dos dedos das mãos
com que apalpo a caixa craniana
em que se aloja o encéfalo

Sinto-me
no curto-circuito que se estabelece
entre a pele dos dedos
e a Mente
sucedânea

E dá-me prazer ficar assim
por momentos 
a andar à roda
atrás de mim
como pescadinha de rabo na boca
de olhos vendados
a jogar comigo
à cabra-cega

Que melhor prova posso querer
da existência de mim
se é a minha alma
que a si própria
se apalpa?!

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/apalpando-alma.html

Sopros de vento celeste - 17Jun2018 20:09:00




Sopros de vento celeste

À ida
deixo poemas
e os rastos dos meus passos
impressos no pó do caminho

À volta
já a brisa do fim da tarde
alisou as arestas dos meus rastos
e outros transeuntes os pisaram
e deformaram

Mas será a chuva telúrica
a apagá-los definitivamente
dissolvendo o pó em lama

Poderiam ser maciços graníticos
piramidais
erguidos anónimos
no deserto
que teriam o mesmo fim
embora mais lenta fosse a agonia
ainda assim

Mas os meus poemas são indeléveis
imprimem o meu espírito nos rastos dos cometas
e das estrelas cadentes
que na imensidão do Cosmos traçam
o devir

São sopros de vento celeste
em que acabarão por se diluir

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/sopros-de-vento-celeste.html

Uma lua cheia de uma cruz - 14Jun2018 20:41:00



Uma lua cheia de uma cruz

Há na minha aldeia uma Cruz
Iluminada
Desmedida
Que todas as tardes se acende
E eu vejo recortada no horizonte da noite
Desde o sítio onde moro

Agora que já são quentes as noites de Primavera
E as tílias impõem o seu doce perfume
Aos demais odores que povoam a atmosfera

Também eu me inebrio por dentro
E confundo pensamento com sentimento
Enquanto espero que a lua cheia se levante
Suave
Com seu véu resplandecente
Mesmo por de trás da Cruz iluminada
Que se recorta no horizonte do céu
Da minha aldeia

Atrai-me o confronto do brilho diamante da Lua
Recortada na negritude do Universo ponteado de estrelas
Com o fogo da luz da Cruz iluminada pelos homens

E é no exacto momento em que a Lua enquadra toda a Cruz
Envolto de soledade e quietude
Que fico sem saber distinguir

Que coisas são amar e sofrer
Presente e devir
Pecado e virtude

Então aspiro apenas ser um todo
Sem dores ou amores
Sem distinção entre pensar e amar
Limpo de dúvidas e de angústias!
Será isso Deus?

In Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais-2009)





Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/blog-post.html

Gioconda - 12Jun2018 22:43:00



Gioconda

A sua boca cala-se
e se fala
é para nada me dizer
Pudesse eu adivinhar 
o que os seus olhos dizem

Pudesse eu ter a certeza
de bem interpretar
o seu olhar

Pudesse eu ouvir
nos seus olhos
o seu coração a bater
por mim
já que beijá-la não posso

Se me aproximo
afasta-se 
mas continua a olhar-me
de longe
distante
e eu continuo sem nada entender

Sinto no seu olhar
que o seu coração bate
por mim
só para me perder

Que os seus olhos mal me dizem
o que me quer dizer
porque tem medo
de se prender

Eu fico desolado
a moer
e a remoer
o significado
desse seu olhar enfeitiçado

Porque a sua razão decide não dizer
o que o seu coração lhe diz
e que os seus olhos mal me dizem

in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)





Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/gioconda-sua-boca-cala-se-e-se-fala-e.html

Presságio sibilino - 05Jun2018 22:11:00



Numa noite gélida de Inverno
de corpo a coberto da geada cortante
pelo calor de mantas e lençóis
que é quando melhor o sono sabe!

E no Firmamento esférico
pequeninos sóis cintilantes
iluminam visões de irrealidade

E como o espírito nunca dorme
mesmo se a mente adormece
sonhei um sonho feérico
colorido como o tecto da Capela Sistina
e palpitante de vida como as figuras irreais
que os geniais pincéis de Miguel Ângelo
ali pintaram para a posteridade

Foram as cinco Sibilas
que me falaram, no sonho, uma a uma
misteriosas e belas como se impunha

Falou primeiro Ciméria, sacerdotisa de Apolo
que me disse com voz firme e grave:
- O verdadeiro problema da Humanidade
  não é o aquecimento global ou o carvão!

E a segunda foi Prisca, a Eritreia
que disse tão enigmática como a primeira:
- Nem a escassez de alimentos!

E a terceira foi Dafne, a Délfica
por sua vez mais estranha que a segunda:
- E muito menos a desertificação!

E a quarta foi a sibila Líbia
que disse mais enigmática que a terceira:
- Também não é a guerra!

E a quinta foi Sambeta, a Pérsica
também ela misteriosa e séria:
- Nem sequer o moderno terrorismo!

Levantei a voz, perplexo, para as interpelar:
- Fazeis jus ao nome, sois enigmáticas e sibilinas! 
  Quais são então os problemas da Humanidade?!
  Qual é a vossa verdade minhas meninas?!

Responderam-me as cinco de pronto
em uníssono e sibilino coro:
- Os verdadeiros males da Humanidade
   que ameaçam converter a Terra
   num planeta estéril e vazio
   e desabitado como Vénus e Marte
   são a Mentira insidiosa
   que mata a Verdade e mina a Civilização
   a Ganância desenfreada 
   que deixa a maior parte sem pão
   porque tudo quer e não respeita nada
   o Vício generalizado
   que mata o corpo e embrutece a mente
   a Vaidade demente
   que divide e humilha toda a gente
   e a Intolerância cruel
   que escraviza e endurece o coração

Céptico e entristecido redargui desta sorte:
- Muitos humanos lutam para se libertar
   para ter tempo de viver e amar
   mas nenhum sobrevive à morte!

Então as cinco esfíngicas figuras cantaram
em tom grave, pausado e melodioso
este presságio cruel que me fez acordar:
- Todos vós, humanos, sobrevireis à morte
   porque sois Corpo mas também Espírito
   e o Espírito é eterno e nunca morre!
   Mas nem todos vós vos libertareis da dor
   e alcançareis o estado de pleno Amor
   antes ou depois de morrer
   por não ser esse o vosso querer!
   Tratai que uma vaga de Amor e Verdade 
   avassale toda a Humanidade!
   e salvai a Terra, se vos quereis salvar!




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/pressagio-sibilino.html

Agora outros galos cantam pela madrugada - 03Jun2018 19:25:00



Agora outros galos cantam pela madrugada

O relógio da sala tocou a nota musical introdutória
com poesia
embora igual para todas as horas certas
ou incertas
(os quartos e as meias têm outras melodia)
e depois deu doze sonoras badalas
espaçadas
metálicas
marteladas

Entristece-me que os mestres relojoeiros de relógios analógicos
não hajam construído mais relógios zoomórficos
para lá dos cucos a que damos corda
para que continuem a cucar
mesmo que não seja à hora certa
e o seu canto
pela certa
não vá ninguém
acordar

Concorrendo com os modernos ?timers? digitais
dos anúncios de néon feéricos nas avenidas
de dígitos a piscar no ar
virtuais
com quantas casas decimais se pretender
em consonância com o que se quiser comprar
ou vender

Preferia ouvir os relógios analógicos badalar
em contraposição à insana inovação
que põe milhares de relógios digitais a piscar
por toda a parte
acelerando ainda mais o tempo
e obrigando as pessoas a correr
ainda mais

Ainda assim
quanto a mim
todos acabamos por andar
dessincronizados com o Cosmos

Por isso preferia ouvir os relógios analógicos badalar
crocitar
cucar
e porque não
balir
para me despertar
pela madrugada

Como quando era o galo
madrugador
que com seu estridente estertor
anunciava a alvorada

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)





Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/06/agora-outros-galos-cantam-pela-madrugada.html

Soledade - 30Mai2018 22:08:00




Soledade

Marcámos encontro para o sítio de sempre
embora de antigamente
num banco de jardim à beira do passado
que
como sempre
embora antigamente
se encontrava desocupado

Ambos na ilusão de que voltaríamos a passear de barco
abraçados
como cisnes enamorados

Eu
ansioso
julgava reconhecê-la em cada transeunte
que se aproximava
e que tentava reconhecer-me

Ela
ainda assim 
já se encontrava sentada no banco ao lado
há tanto tempo quanto eu
sem que eu a tivesse reconhecido a ela
nem ela a mim

Eu escutava
sim
os seus pensamentos
que eram eco dos meus

Mas não!

Não era ela aquela que eu amei
ela não era aquela que me amou
eu não era aquele que ela amou
nem eu era aquele que a amou a ela

Acabámos por voltar a partir
sem sequer sorrir
como se nem um nem o outro
tivéssemos comparecido ao encontro

Embora continuássemos convictos
de que ainda nos amávamos

Como sempre
embora antigamente

in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/soledade-marcamosencontro-para-o-sitio.html

Se os poetas amassem sinceramente - 28Mai2018 19:39:00




Se os poetas amassem sinceramente

Se os poetas amassem
sinceramente
não fariam do amor
poesia

Limitavam-se a amar como toda agente
tão somente
porque amar
não é fantasia

Se os poetas sofressem
verdadeiramente
não fariam da dor
poesia

Limitavam-se a sofrer como toda a gente
tão somente
porque amar
não é filosofia

Os poetas, porém
nem amam somente seus amores
nem apenas sofrem suas dores
amam os amores e sofrem as dores
dos demais

E espalham por toda a parte
poemas intemporais
versos de dor
de amor
ou de combate




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/se-os-poetas-amassem-sinceramente.html

Afinal as fadas existem - 26Mai2018 12:11:00



Afinal as fadas existem

Esta estória sucedeu já no Inverno passado
mas só agora achei o momento asado
para a contar

Vestia a minha soberana samarra transmontana
e o boné
que uso quando o mau tempo acomete
assim como apareço em fotos difundidas pela net 
pelo que não seria difícil alguém me referenciar

Sentado à mesa de um café
a tomar o pequeno-almoço
embora só estando presente até ao pescoço
a minha cabeça não estava ali
tanto que de nada nem me apercebi


De olhar fixo num ponto dentro de mim
embora sem nada ver
dentro e fora 
o meu espírito vogava
e pensava
que a vida é um desencanto


Tanta coisa linda
em que acreditamos quando criança
e nos inunda de esperança
que até nos causa espanto
mas que depois concluímos não existirem
e que nos são contadas só para nos iludirem

É o Pai Natal
o Menino Jesus
as fadas 
as musas
a democracia
o mítico Portugal
as moiras encantadas
as bruxas
e mesmo as palavras esdrúxulas.

Tudo fantasia!

Quanto a bruxas,
ah!
sei que continua a haver quem diga
que não acredita
mas que as há, 
há!

Mas isso é outra cantiga

Estava eu nestas tergiversações supra reais
quando senti algo
ou alguém
tocar-me ao de leve
muito suavemente
no ombro
para meu assombro
já que não esperava ninguém

Seria gente?

Uma fada?
Uma bruxa?

Uma musa?
Um pingo de chuva?

Talvez fosse alguma palavra esdrúxula
que com o Acordo Ortográfico andam disparatadas
já que são agora acentuadas
ora de grave ora de circunflexo.

Pensei.

Não liguei de imediato
mas ao segundo toque despertei,
perplexo

Não era a chuva 
uma bruxa
nem uma palavra esdrúxula 
que essas não tocam assim

Era uma fada verdadeira
de carne osso
perfumada
de cara iluminada pelo olhar
e que usou o sorriso sedutor
como varinha de condão
para me tocar o coração

E me falou
para me dizer
que me adorava ler
mas que achava os poetas pouco fiáveis
porque não sabem guardar segredos

Todos os amores e medos
grandezas e fraquezas
que alguém cai na asneira
mesmo se por brincadeira
de com um poeta partilhar
é sabido que vão parar à net
e por todo o Universo
ir-se-ão espalhar
em verso
embora nem sempre se saiba 
a quem o poema remete

Por isso ela ali me aparecia
para com a sua fantasia
tornar credível a minha poesia

Mas que tinha a certeza 
que eu lhe iria dar razão
já no próximo poema
versando este tema

Tocou-me o coração
respondeu afirmativamente ao meu convite
de ?aparece quando quiseres?
e desapareceu
deixando-me no limite
em alvoroço

Afinal as fadas existem
e são de carne e osso

Perfumadas
radiosas
amorosas

Assim como mulheres!

in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)


Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/afinal-as-fadas-existem-esta-estoria.html

A poesia de amor nasceu nos olhos de uma mulher apaixonada - 24Mai2018 16:37:00





A poesia de amor
nasceu da luz da Lua
do esplendor do luar
reflectido no olhar
de alguma mulher nua
apaixonada

Quando o homem assim amado
tomado de amor e fantasia
lendo esse poema original
nos olhos da sua amada
de paixão assim tomada
e de irrealidade coberta
abriu o coração sentimental
e se fez poeta

E não tardou a aprender
a de amor sofrer

A não dizer a verdade
sem mentir
a fingir
para sua dor iludir
melhor se compreender
e consolar

Poemas de amor são lágrimas de luar




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/a-poesia-de-amor-nasceu-nos-olhos-de.html

Espaço-Tempo-Amor-Além - 21Mai2018 19:38:00



Paro para pensar
anulo o movimento
anula-se o tempo
e alarga-se o meu
Eu

Rumo à Eternidade
por dentro e por fora de mim
em busca do Absoluto

A partir daqui
deste meu reduto de espaço-tempo-amor-além

Daqui
deste meu chão

Meu sítio
meu canto 
meu mundo
meu berço 
meu lar
meu ninho
minha terra
minha pátria
meu céu e meu mar
minha ampla planura
minha serra a cerrar o horizonte
minha névoa e luar
meu covil e castelo
meu casebre e palácio
meu sol de abrasar
minha lura de lebre
meu espaço com fim
minha janela aberta à Eternidade

Porta de sonho e esperança
escancarada no seio do Cosmos
na angústia e na saudade 
vidraça do futuro e da lembrança 
que tento partir à pedrada
qual criança

Daqui
deste meu sítio
onde dependuro pote e capote

Me sento e amanso
durmo e descanso
canto e rio
grito e cicio

Por entre ranger de estrelas e ladrar de cães
choro de crianças
aflições de mães
trinados de aves
toque de finados
e o silêncio
indiferente
de Deus
com que me aflijo e angustio

Daqui
deste meu chão
por este meu reduto de espaço-tempo-amor-além 
impregno o Cosmos de meus odores
e humores
minhas lágrimas e meu mijo
meu cuspo, suor e sémen
uivos de dor
canções de amor e de embalar
sussurros de presença
gritos de ausência
tédio e saudade
perfume de tília
colorido de glicínia e buganvília
ensopado de vida e angústia
por dentro e por fora do Alfa e do Ómega
de onde o espírito advém

Daqui
deste meu mundo
moldado por minhas ideias
e mãos
sonhos e sofrimentos
angústias e tormentos
assobiados por mim e pelos ventos 
que por aqui perpassam
pelas asas dos pássaros que esvoaçam
por mil raízes que minam o solo em procura de húmus
e consolo

Não para sobreviver
mas para dar frutos e alegria
porque vida e guarida
a têm garantida

Aqui e agora
por este meu reduto de espaço-tempo-amor-além
liberto da cobiça e da obrigação de ir à missa
e dizer ámen
compreendo também
a filosofia de meu avô João:
«A Salvação
uma libra gasta
outra na mão»

E espero
aqui
um dia
vir a morrer
crente de que a morte 
é um passo da vida vivida
não um golpe de má sorte

É um adeus definitivo
não o definitivo adeus

Paro para pensar
anulo o movimento
anula-se o tempo
e alarga-se o meu
Eu

Rumo à Eternidade
por dentro e por fora de mim
em busca do Absoluto

A partir daqui
deste meu reduto de espaço-tempo-amor-além


in Angústia, Razão e Nada (1.ª Edição 2007)




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/espaco-tempo-amor-alem.html

Encantamento d?alma - 20Mai2018 00:04:00



Encantamento d?alma

Este encantamento d?alma
de caminhar ao luar
noite adentro
de me firmar
no Firmamento

De ouvir o espírito segredar-me coisas
que o cérebro ouve
mas não entende
nem é capaz de codificar em palavras
explícitas

Coisas que não cabem neste mundo
nem mesmo no universo perceptível

Este prazer corporal
de exercitar e relaxar os músculos
caminhando
enquanto o cérebro rumina
em surdina
limitado à lógica aristotélica

Enquanto o espírito voga iluminado de alegria
pelo Cosmos sem fim
saltitando de universo
em universo

Este encantamento d?alma
é a práxis poética
pura




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/encantamento-dalma.html

Urinando em formigueiros e tocas de grilos nos lameiros - 14Mai2018 15:01:00




Urinando em formigueiros e tocas de grilos nos lameiros

É uma minha lembrança malvada
de criança
mijar em carreiros de formigas
e tocas de grilos
nos lameiros

Será ainda pior que um professo
mandar o Papa e o prior às urtigas

Se me perguntarem qual o significado profundo
deste poema de dilema
limitar-me-ei a dizer que é imundo
que nada tem de poético
que é pura maldade
quiçá pornográfico
quiçá obscenidade

Um mero poema de tretas
que apenas valerá pelo gozo que dá
invectivar um ninho de vespas
ou declamar sagrados versículos
em clube de poetas proscritos

Para minha absolvição
direi 
somente
e em abono da verdade
que não terei sido eu o primeiro
a fazer tal maldade
e que fazia uma tremenda ginástica
para acertar na toca do grilo
ou no buraco do formigueiro
por falta de prática

Era ainda menino de calção
e só desistia quando sentia 
a primeira formiga picar-me os testículos
e já todos os insectos desafectos
me perseguiam no carreiro

Proferia então
uma palavra bem mais obscena
que todo este poema
e? fugia

Assim aprendi
que há uma infinidade de espaço no Universo
onde poderei urinar à vontade
um simples verso que seja
sem importunar
uma formiga tão pequenina
que mal se veja




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/urinando-em-formigueiros-e-tocas-de.html

A minha alma mora no meu coração - 13Mai2018 19:26:00



A minha alma não mora na minha mente
como demente
cheguei a pensar

Não mora em nenhum órgão
glândula ou apófise
como pus a hipótese

A minha alma mora no meu coração

É lá que passa a maior parte do tempo
divertida
a deixar-se emocionar

De onde sai levada pelo vento
sempre que o pensamento
se põe a divagar

E quando encontra coisas que a fazem sofrer
ou a razão não é capaz de compreender
uma dor
uma cruz
é ainda no meu coração
que a minha alma
se vai refugiar

A minha alma mora no meu coração
é de lá que sai essa luz
chamada amor




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/a-minha-alma-mora-no-meu-coracao_13.html

Transmontana nostalgia - 12Mai2018 00:48:00



Transmontana nostalgia

Senti os pés descalços escaldar
No pó fervente dos caminhos
À torreira do sol mediurno
Que secava os figos em fragas arredondadas
Na hora em que até as aves estavam caladas
E dos rostos caíam pingos de suor salgado

Caminhei descalço no restolho afiado
Resto triste dos fugidios trigais 
E nos olivais sombrios
Procurei ninhos de doirados pintassilgos
A quem fartava de painço e prisão
Em troca de uma mais alegre canção

Chamei pela matilha em agudos assobios
E ouvi o latir do galgo
Que célebre percebe a lebre
E o estampido do tiro 
Que pronto a fere

Segui o voo soturno das rolas mansas
Defronte da minha escopeta
Quando já das cerejas restavam passas 
E pelas mãos calosas corriam palhas ásperas
Que depois de mil martírios 
Iriam encher o celeiro

Dei caminho à água fresca
Nos regos do milho a estalar
E senti melões e melancias a inchar 
De Sol e húmus

Cantei romances pela segada
E debiquei as uvas pela vindima

Amei raparigas rosadas
A cantarem cantigas cristalinas
Nas manhãs louçãs de Primavera

Apanhei amoras nos silvedos
Quando já o bago pintava
E nas noras metálicas se apreciava a água

Tornei-me ousado 
A trepar alcantilados rochedos
Cresci são a respirar ar puro
E adorei a beleza cristã 
De papoilas e malmequeres

Não temi o Inverno rigoroso
Sorvi a neve
E o meu peito
Foi mais forte que a geada

Adorei Cristo
Em cada mendigo andrajoso
Que no primeiro degrau da escada
Rezava humildes Pai-nossos
Enquanto minha mãe 
Condoída ela mesma
Lhe deitava azeite na lata

Armei o Presépio pelo Natal
Joguei ao rapa pela Consoada
Pus máscara pelo Carnaval
E botei o pião pela Quaresma

Senti
Em mim
O toque das Avé-Marias
Quando pelo findar do dia
O arfar quente da terra faz de nós poetas
E calado vi descer a noite
No fumo diáfano da aldeia
Em visão bíblica de deserto e oásis

Sorvi o caldo quente
Com a religiosidade de meus avós
E na lareira rubra 
Encontrei doce temperança
Para os músculos doridos

Ouvi a passarada cantar alegre
No espaço verde da devesa
E invejei-lhe a liberdade

Um dia emigrei
E nas terras distantes
Não esqueci meus pais

Vivo com vida
A vida de cada ano
Sou 
E sempre serei
Transmontano!

in Poemas da Guerra, de Mim e de Outrem (2010)




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/transmontana-nostalgia.html

O Adão, a Eva e o Vinho - 08Mai2018 11:25:00




O Adão, a Eva e o Vinho

Deu Deus, ao bom Adão, para o alegrar
A companheira Eva, um ser fascinante
E também vinho do Éden, inebriante
Que acabaram por Adão condenar

Porque por Eva se deixou apaixonar
Caindo na louca condição de amante
E ainda no Éden, já de Deus distante
Bebeu o vinho até se embriagar

Vida de homem é, por isso, provação 
Mas o vinho e a mulher doce agasalho
Que bem-amados lhe darão a salvação

Vinho com moderação, fora do trabalho
A mulher sempre contente e com paixão
Seja o homem criança ou já grisalho




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/o-adao-eva-e-o-vinho.html

Quando a minha sombra mais se alonga - 04Mai2018 22:32:00




Quando a minha sombra mais se alonga

O Sol nasce atrás de mim
lá para as bandas da serra de Bornes

À hora em que ainda durmo
inocente

O Sol poente
porém
oscila
entre o cabeço do Boi e a serra da Santa Comba

Entre as cinco da tarde no Inverno
e as nove da noite
no Verão
horas a que a minha sombra
mais se alonga

E não é por acaso mediterrâneo

É porque é à hora do ocaso
que a minha mente mais se perde
em divagações astronómicas
dilacerada entre poesia e astronomia

Hora a que a minha alma mais se sente
se angustia
e delira em arrufos místicos
espontâneos

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)



Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/quando-minha-sombra-mais-se-alonga.html

Em mim não acredito e de Deus desconfio - 03Mai2018 20:10:00





Em mim não acredito e de Deus desconfio

O Cosmos de meu avô João
era toda a terra em que à luz das estrelas
semeava pão

O meu
é todo o espaço-tempo
em que planto poemas
eivados de dilemas
e de contrição

Cosmos infinito
mas pequenino
o meu!

Do tamanho do silêncio
indiferente
de Deus

Magistério de mistério
que professo como monge
porfiando poesia

A gritar poemas sem tino
e a acenar
a acenar
na esperança de que alguém
me virá salvar

Se é que não ando a deitar
tudo a perder

Em mim não acredito
e de Deus desconfio
que só Ele
me poderá valer

in Introdução à Eternidade (1.ª Edição, Outubro de 2013)


Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/em-mim-nao-acredito-e-dedeus-desconfio.html

Amorável, doida, doída, dorida, nonsense. - 01Mai2018 12:19:00




Amorável, doida, doída, dorida, nonsense.


A poesia é a arte do utópico
das indefiníveis estéticas
do inimaginável
amor sem dor

É a génese das religiões
ainda que Amor e a Fé
não sejam meras construções
poéticas

Melhor que nada nos revela o real
as raizes profundas do ser
daquilo que verdadeiramente é
nos despoja do ter
e do haver
mais nos aproxima do bem
e nos afasta do mal

Toda a poesia
como a vida
é
amorável
inexplicável
irracional
doida
doída
dorida
nonsense

Por mais que se pense
ou não pense
se diga ou se fique calado
extasiado
a olhar o céu




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/05/amoravel-doida-doida-dorida-nonsense.html

Estas fragas que me falam - 29Abr2018 15:56:00



Não ouvi esta fábula a nenhum animal
da terra, do mar ou do ar
mamífero, ave, peixe ou réptil
a nenhuma flor espadice ou séssil
nem a ninguém com boca para a contar

Escutei-a a uma fraga, granítica, disforme e fria
das inúmeras que emolduram o quadraçal
qual quistos implantados na face rugosa da terra
por onde corre, já velho e alquebrado
o meu benquisto rio Rabaçal

Quando encostei o ouvido ao ventre da monstra autista
na ilusão de descobrir em qual delas se escondia Narciso 
jovem beócio natural de Tespia 
filho da linda ninfa Liríope e do brando Zéfiro
vento suave e conciso
fruto da mais amorosa viração

Uma daquelas fragas arredondadas
acariciadas pelo rio cristalino 
teria que ser o divino Narciso
por quem toda a mulher bela se apaixonava
mas que enamorado de si para seu mal
a todas por igual desprezava

Até que a bela e agreste ninfa Eco
a quem também Narciso não sorria
vendo que ele desmerecia tamanha paixão
o transformou em pedra de verdade
sem coração, alma ou chama
e é por isso que hoje em dia
mais louvamos a avisada Ecologia
que a supérflua usura mundana

Na verdade não ouvi dizer a nenhuma fraga informe
que seria ela o próprio Narciso
jovem beócio natural de Tespia 
transformado em pedra pela ninfa fatal 
quando ruída de despeito e ciúme 
o viu apaixonado pela própria imagem
reflectida ao sol posto 
no lume do rosto do meu rio Rabaçal

Mas todas as fragas me segredaram 
enquanto se miravam nas águas mansas
por entre chilreios de passarinhos
e o tremeluzir da folhagem
que Deus colocou a semente da poesia
no empedernido coração do homem selvagem
cego pela vaidade e desejo de vingança
para que a figura da verdade e da esperança 
melhor se reflictam na superfície imaculada da alma
onde pela noite serena também resplandece a Lua
em romântica luminosidade e amorosos sinais
e o Sol em tardes de calma se vem banhar
impiedoso e ofuscante para os olhos mortais

Assim Deus deu aos homens o dom abençoado da poesia
acorde de todas as harmonias
capaz de extirpar a angústia e aplacar o ódio
suavizar a amargura e sufragar a desilusão
partilhar amores e alegrias
e melhor suportar os males da paixão

E quanto mais os políticos e os tecnocratas
partirem fragas e removerem montanhas
sem amor nem fantasia
mais dor e sofrimento haverá em cada dia
e mais a insana sociedade
se afastará da felicidade

Por isso há inúmeros poemas silenciados
transformados em fragas nas entranhas do quadraçal
salvaguardados de todo o mal
cujos acordes só eu ouço
e cujo conteúdo ninguém pressente
ainda que estejam ao alcance da vista
e dos ouvidos de toda a gente

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/04/estas-fragas-que-me-falam.html

Com flores e versos me iludia - 27Abr2018 20:24:00





Abri-lhe o coração de par em par
Sofrendo com o medo de a perder 
Por assim tanto e tão bem lhe querer
Sem saber como melhor a conquistar

Oferecia-lhe flores de sonhar
Poemas de amor e de bendizer
Aborrecia-a, porém, sem querer
Com minha forma, pura, de amar

Ela não gostava de poesia
Pelas flores não sentia afeição
Não a conquistava, antes a perdia

Só o brilho das jóias a movia
Lhe fascinava olhos e coração
Eu, com flores e versos me iludia




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/04/blog-post.html

Pedras e palavras soltas - 23Abr2018 23:18:00




(Ainda antes de falar palavras
lançou mão de pedras
o homem)

Oh! Que prazer que me dá
a mim
empilhar seixos e xistos
pequenos
disformes
conformes com os dedos
do tamanho da palma da mão
tão leves como o coração
ainda assim!

Atirá-los
lançá-los a esmo
sem projectos nem enredos
para um tosco montão

Ouvi-los bater uns nos outros
com rusticidade
vê-los rebolar
para posições mais estáveis
como se fora deles a opção
e não da gravidade

Sentir que o meu espírito voa
para longe dali
à medida que o montão cresce
caótico
que cada pedra é uma palavra
que ali não fica sepultada
uma ideia que se solta
salta
e voa
à procura do poema a que pertence

E que inocente prazer
é ver o merouço crescer
de diferentes perspectivas
e sem outro dilema sentir
que não seja ver
e ouvir
o que vejo e ouço

Julgo eu
que não sou entendido em Pré-história
nem desta parte
em História de Arte
nem fazer doutrina tenho em mente
que terá nascido assim
a primeira obra poética
o mais tosco poema
escrito em pedra solta
certamente

Com a mesma beleza dos seixos
que na boca de Demóstenes
por força da sua fé
floriam em palavras de poemas

E que terão a mais as pirâmides do Vale de Gizé
do que este patético amontoado de pedra
que terem sido edificadas
por milhares de artífices escravizados?

E que terá a mais a Grande Muralha da China
para lá de ser maior
ter ameias
e blocos de granito mais solidamente cimentados?

E que terão a mais a Ilíada e a Odisseia
do que esse pré-histórico tosco poema
que não seja mais versos
mais harmoniosamente rimados?

De pedras e palavras se faz poesia
se a mão que as lança
a língua que as afia
forem tocadas pela imaginação


in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)



Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/04/pedras-e-palavras-soltas.html

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