Henrique Pedro

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XXV ? A Pátria, por fim - 17Ago2018 11:46:00





Não me alimentei de maná
Caído do céu
No deserto
Mas da fé que Deus me deu
Da força de viver
Que o amor me dá
Ânsia de imortalidade
Quimera de santidade

De que viveu o meu corpo já bem nem sei

Talvez de sopros de ar
Vindos do mar
Das gostas de suor
Que me caíram do rosto
Das migalhas de pão que aparei na mão
E amassei no mosto da saudade

Qual criança a sorrir
Inocente
Preparo-me agora para voltar
Ao mundo da gente
Na esperança de te encontrar, Huri
Feliz e contente
Radiante por me ver

Poder abraçar-te finalmente
É a minha maior alegria também

Retornar à Pátria
Por fim
E voltar a partir para longe de mim
É a mais bela melodia
Que a poesia contém



Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 30 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xxv-patria.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XXIV - Dunas de fantasia - 16Ago2018 14:59:00





Ando arando com os dedos a duna
Imaginando que é o teu corpo
Abandonado ao gozo langoroso da praia
À frescura da espuma rendilhada de cambraia
Agora que aí em Portugal é Verão
E aqui é um eterno inferno

Sopram, sobre mim, brisas de emoção 
Que varrem as areias
E me fazem o sangue ferver nas veias
Enquanto massajo o teu seio
Com o gel do desejo
E os teus cabelos esvoaçando
Me acariciam o rosto

Antevejo
Em ti
Igual tentação ao sol-posto
Inebriada pelo divino mosto do amor

Assim semeio sonhos e saudades
No meu coração enamorado
Que se enrolam em ondas de vento e paixão
E me levam fascinado
A surfar deserto adentro

São fantasias de Verão
Planos para quando eu voltar

Sacudo a areia das mãos
Como se fossem as toalhas
Em que estivemos deitados
Lado a lado
Estirados ao Sol

Escondo a minha dor
Por detrás das muralhas de dunas importunas
Resignado com a minha condição


Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 27 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xxiv-dunas.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XXIII - Simum, o vento - 15Ago2018 10:45:00





Quando menos se esperava
Simum, o vento
Varreu violento o acampamento
Por mais de uma hora

A atmosfera ficou negra
Purulenta por dentro e por fora
De pó e areia
E da mais triste e virulenta
Ideia

Num sopro
Vejo-me a voar sem corpo
Universo fora
E mais além

É o corpo que me dá prazer
E dor também
E nele me amarro ao mundo

No espírito me afundo
Não sofro
Nem gozo
Na realidade

Apenas pressinto a luz da verdade
Que me mantém desperto
Neste deserto

Simum, o vento
Vai chegar aí também, Huri
Varrendo todo o espaço aberto
Feito ciclone de saudade
A assolar o teu coração

Na minha alma ficam cavadas
Dunas de ansiedade
Revoltas pelo vento suão


Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 25 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xxiii-simum.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XXII ? Não chores mais por mim, Huri - 14Ago2018 11:10:00






Não chores mais por mim
Huri

Parti
Não fugi

Embora de mim fuja
A toda a hora
À procura de melhor sorte
Ainda assim
Arriscando-me a morrer
Sem encontrar a morte

De ti, porém, nunca parto
Nem me aparto
Nem de mim te quero sentir apartada
Nem tão pouco te perder

O teu pranto de despedida
Será lago de alegria
Canto de encanto
À chegada

Bebi essas lágrimas sagradas
E trouxe-as dentro de mim
De verdade

Só assim sobrevivo
Nesta terra de areia
Mal fadada
Na ideia de que está inundada
De lágrimas de amor

E que toda a dor
Se reduz a saudade


Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 21 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xxii-nao.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XXI ? Sonhos súcubos - 13Ago2018 11:17:00






Rende-se o corpo ao cansaço
Adormeço
Deitado numa cova de areia
De uma recôndita duna

Quando o negrume da noite se expande
E as estrelas se acendem uma a uma
Em cadeia
A areia exala vapores
Que se corporizam em sonhos súcubos

Então
Mil bailarinas libidinosas dançam a dança do ventre
Vaporosas
Enfeitadas de mil rosas
E sorrisos elanguescidos
Por entre cascatas  
De água
Melodiosas

Breve é o sono
Fugaz o sonho
Acordo sobressaltado

Dou-me conta de que estava a sonhar
Que nada daquilo era verdade

E das areias do deserto emerge tenebroso
O ruidoso monstro da saudade
Que me impede de dormir
De continuar a sonhar
E me impele a poetar



Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 20 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xxi-sonhos.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XX? Troglodita - 11Ago2018 13:35:00




Não me cabe a mim escolher
E não é pacífico o dilema
Nem o poema

Entre o deserto

Onde nem uma ave voa sequer 
Nem tão pouco voga um vulto de mulher
E a fome, a sede e a solidão matam e enlouquecem
Sem remissão

E as selvas
As florestas urbanas
E sub-humanas
Do Rio, de Paris ou de Lisboa
Onde nunca anoitece
Nem alvorece

Pudera eu ter-te aqui, ou lá, comigo, Huri
E a imensidão do deserto se transformaria em oásis frondoso
E a selva mais ardilosa
Quiçá
Num paraíso indiviso
Apenas partilhado por nós
E pelo Sol cor-de-rosa

Devaneio

Regressar à condição de troglodita
Será a minha glória
Ou a minha desdita?

Refugio-me nos subterrâneos do meu ser
Por onde vagueio
Desperto
Até me encontrar
Ou me perder

Sou um universo fechado
Num deserto aberto


Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 17 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xx-troglodita.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XIX ? Banha-se nua, ao luar, no lago dos meus olhos - 09Ago2018 23:45:00






Banha-se nua
Em segredo e em fantasia
No lago dos meus olhos ao luar
O fascínio do seu albedo 
Me faz sonhar à luz do dia

E sentir medo de acordar
Neste mar de escolhos
O calor me seca os olhos
Não tenho lágrimas para chorar

Como a Lua que se banha nua
No céu
E chora lágrimas a cintilar
Que são estrelas
Assim é ela
Assim sou eu

De noite é sonho
De dia fantasia
E eu
Não sei que sou

Serei terra?
Serei céu?
Não sei que sou de verdade
Sou dor
Espuma de amor
Pura saudade

Por agora sou só sensação
Pouco mais que instinto
Trago uma fagulha de amor no coração
Faminto
Uma brasa que me abrasa a razão


Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 14 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xix-banha-se.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XVIII ? Sempre que anoitece no deserto - 08Ago2018 12:36:00




Vivo dia por dia
Crente de que a vida me não engana
De que amanhã estarei vivo
E poderei continuar a sonhar
Contigo

Porém
Sempre deixo algo para fazer amanhã
E depois de amanhã
E na próxima semana
E no ano que vem

Algo que me prolongue o sonho
Que me faça pensar
E acreditar
Que assim viverei mais tempo
Quiçá para sempre

Nem mesmo a saudade
Que me vem de verdade
Sempre que anoitece
E me entristece
A sofrerei toda já
Hoje

Deixarei a maior parte
Para a sofrermos depois
Os dois
Em paz
Em silencioso lamento

Tenho assim a certeza
De que não te esquecerei

E que o meu amor merece a tua beleza
E não é tão fugaz
Como o vento


Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 11 de Agosto de 1955



Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xviii-sempre.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XVII ? Doí-me a alma e o coração - 06Ago2018 22:35:00





Estou deserto de regressar
Mas não deserto

Desperto
Continuo a sonhar

De novo me ausento
Para o deserto profundo
O único lugar do mundo
Onde somente sopra
O vento

Aqui melhor eu sinto
O ciclone da saudade
Dentro de mim a uivar

É a voz de Huri
Que não cessa de me chamar

É forçoso partir
Ir
E tornar

Se tapo os ouvidos para não a ouvir a chamar
Abranda o uivo do vento
Mas o seu lamento 
Mais forte me rasga por dentro

Nada me tira daqui
Deste mar seco de soledade
Deserto de ansiedade
Dunas de solidão
Dói-me a alma e o coração

Será que só a morte
Me libertaria desta triste sorte?

Não!
Da vida a morte é termo
Não é critério

Só o amor e a fé em Deus
Transforma este inferno
Em refrigério


Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 9 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xvii-doi-me.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XVI- Sahara - 05Ago2018 15:58:00



Não é Terra
É Marte, é Vénus, é lua

É areia
Despida
Nua
Sem húmus
Nem água
Nem ideia

Sem vida nem morte
O deserto mata
E seca
Só para sobreviver

Sem rumo ou norte
Sem além
É deserto é aragem
Miragem
É duna 
Ciclone
Convulsão
Local de passagem
Terra de ninguém
Aperto de coração

Sem vida nem morte
Sem rumo nem norte
O deserto incerto
É oásis
Quimera de éden


Tempo parado
A acontecer



Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 8 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xxv-sahara.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XV ? A viver e a morrer no deserto - 03Ago2018 22:10:00




O local ideal para um homem morrer
Desacompanhado
É o deserto

Na convicção de que a única fera que lhe devora as entranhas putrefactas
É o sol

E que os ossos calcinados
Se desvanecerão em pó
E se perderão na areia
Sem irem parar ao monturo de um qualquer cemitério
Da civilização
Destinados a serem reciclados 
Em qualquer produto industrial

Enquanto a própria alma se evolará
Na alvorada seguinte
Sem ritos litúrgicos
Como a mais pura exalação da vida

Donde se infere também
Que o local ideal para o homem viver
De verdade
É no espaço aberto
Do deserto
Onde melhor resiste às tentações
A alma se alimenta de fome, sede e orações
E o espírito mais claramente divisa o além
E se alcança a Eternidade

Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 6 de Agosto de 1955




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xv-viver-e.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XIV ? Semeando poesia na areia - 02Ago2018 16:29:00



No ar anda o ar da saudade
Angustiada
Condensada em grãos de ansiedade
Que me escorrega das mãos
Como areia
                  Ampulheta sem tempo
Que o vento molda 
Em dunas de sofrimento

Ideia que semeia poesia
Onde nada subsiste

Aqui apenas existe
Vento
Areia
E esta alegria
Breve e triste

Procuro flores escondidas
Transfiguradas em pólenes
Em esporos e esporângios
Que misturadas com as areias do deserto
Esperam há milénios
Por uma gota de suor e de esperma
Para germinar

E florir como anjos
Na frescura dos oásis
Se dessedentar de amor
E amar

Aqui a noite é de prata
Tem o toque da Lua
E do luar
O encanto da lubricidade

Já o Sol é demais
É de oiro
E mata


Daniel Monforte, Legião Estrangeira
Algures no Deserto do Sahara
 5 de Agosto de 1955






Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xiv-semeando.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XIII - Uma mão cheia de areia e outra de deserto a desertar - 01Ago2018 12:06:00





Do chão
Apanho um punhado de areia
Para de mão erguida
A abrir de seguida
E deixar que as areias
Uma a uma
Retornem à duna

Assim me abstraio da minha ansiedade

Até que resta só
 O pó da saudade no ar
E dessa
Não me consigo libertar
                  Porque nenhum vento passa
Por perto
Que para longe a faça soprar

Do chão
Apanho outro punhado de areia
E lanço-a no ar
Do deserto
Onde se não divisa nenhum caminho

É por aí que segue o meu destino

À noite
Lanço outra mão cheia de areia
Ao vento
No espaço aberto do deserto
Para saber
De que lado está o vento
A soprar

Uma mão cheia de areia
Outra de deserto
A desertar

Vejo a Estrela do Norte no céu a fulgir
Ouço o Cosmos a tilintar
É minha amada que me está a sorrir
São horas de em amor 
Ao luar
Me banhar

Mais a norte
Ouve-se a morte a ribombar 

Daniel Monforte, Legião Estrangeira
(Algures no Deserto do Sahara)
  iv-viii-mmix





Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/08/um-livro-aberto-no-deserto-xiii-uma-mao.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XII - Pietá - 30Jul2018 19:25:00





Sentada no chão
À entrada do adobe esburacado
De semblante alucinado
Com o filho moribundo nos braços
É uma estátua de morte viva
Uma imagem trágica
Que me tolhe os passos

No crânio da criança
A fome esculpiu uma caveira
A boca febril é pasto de moscas
Os olhos mortiços saltam-lhe das órbitas

A barriga prenhe de fome
Parece prestes a parir a morte
Já os ossos lhes rasgam a pele

A mão estendida da mãe
Rasga-me o coração
A sua súplica silenciosa
Fura-me os tímpanos
A sua agonia é a mim que primeiro mata

Que tenho eu para lhes dar?
A arma?
Um sorriso?
Uma lágrima sentida?

Dou-lhes a ração de combate
Sacio a boca febril da criança
Com a água do cantil

No rosto da mãe
Esboça-se um ténue sorriso
De esperança
Agradecida

Não tenho coragem para prosseguir
E deixá-los ali
Sós
A agonizar

Neste deserto 
Aqui tão perto
No deserto da humanidade

Algures no Deserto do Sahara)
  xviii-vii-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-xii-pieta.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO XI ? Oásis - 28Jul2018 21:00:00



Depois duma penosa travessia
Em que por pouco enlouquecia
De calor
Sede
E solidão
Faltas-me tu
 Huri

De braços abertos
Sorriso rasgado
No rosto de amor iluminado

Rejubilante de alegria por me receber
Desejosa de me vitoriar

Mas se no deserto me perco
No oásis não me reencontro

Volto a acreditar, sim
Depois que estive a morrer
Que há mais vida para lá de mim
E mais prazer além do sofrer

Mas a água fresca que sacia a sede
Não mata a saudade
Apenas ouço o silêncio do que penso
Falta-me a tua voz encantada

Os lagos em que me banho
Não possuem a frescura perfumada
Da tua pele electrizada

O oásis sem ti é pior que o deserto
Ainda mais cruel
Mais me faz sofrer
Porque só de ti  me faz lembrar

Melhor será ao deserto retornar
Para de ti me esquecer

(Algures no Deserto do Sahara)
 iv-v-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-xi-oasis.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO X ? Cavaleiro Andante das Areias - 27Jul2018 01:26:00




Figura rara
Sem escudo nem laçarote
Cavalgo sem cessar
Sobre o dorso de um dromedário
Ondulante
Qual Quixote das ideias
Cavaleiro andante 
Errante nas areias do Sahara
Sem ter aonde parar

Sem escudeiro
Sem Sancho
Nem Pança
Nem lança

Este o sentido da minha poesia
Sendo que a minha Dulcineia
Me espera noutro lado
Distante
De angústia são as dunas em que me deito
E me servem de leito

Tomei partido pelo Bem
Sem olhar aonde
Nem a quem

Sendo que só com poesia se humaniza a guerra
Se suaviza o deserto
Se semeia oásis
Se planta a paz na Terra

Com o amor que se faz
E o a amor que se dá

Esta a minha maior vocação
Ser como S. João da Cruz
Como Francisco de Assis
Fardado e de arma na mão

Esta a angústia da minha contradição

(Algures no Deserto do Sahara)
 iii-v-mmix



Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-x-cavaleiro.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO I X ? Vivo de ar, água e oração - 25Jul2018 12:07:00





Não é miragem
É milagre!

Ergo-me num derradeiro sopro
Pressinto-lhe o cheiro
A frescura envolvente
A minha alma está silente

Uma alegria indizível me revigora o corpo
Me embriaga o espírito
E alegra o coração

Corro!
Com as forças que já não tenho
Mas que acredito tererei
Depois de beber
E de me dessedentar

Paro!
Terei que me matar para beber?!
Olho em redor
Não vislumbro vivalma

É morrer o preço de beber?

Viva ou morra
Beberei!

Bebo
Com sofreguidão
A paz
Por fim
Se instala na minha Razão

É a Água
Não a Terra
A nossa mãe

Em terras de xisto
Cristo é o pão

De ar e de água se alimenta o corpo
À alma basta uma oração

(Algures no Deserto do Sahara)
 xxx-iv-mmix


Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-i-x-vivo-de.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO VIII ? Reclino a alma em manto de areia - 23Jul2018 18:16:00





Distende-se a noite sobre o manto ondulado de dunas
Abate-se a calma
Deita-se a morte na areia
Em que reclino a alma

Diáfano
Cobre-me o Firmamento
Maior é o meu pensamento
Onde uma ideia feita estrela bruxuleia

Procuro o poema Polar
A poesia do norte
Ponho-me a meditar

Sou cristão
Por isso não tenho religião

Sou branco
Ainda assim não tenho cor

Sou português
Não tenho pátria
Portanto

Pecador
Aspiro a ser santo

Nasci livre
Condenado a lutar
Para me libertar

Sinto amor
Mas não sei a quem amar

Escolhi o lugar mais ermo da Terra
O deserto
E a guerra
Para me pacificar

(Algures no Deserto do Sahara)
 xxvix-iv-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-viii-reclino.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO VII - A mulher da burca celeste - 21Jul2018 22:11:00




Imagino o céu de Sherezade
Reflectido no lago do oásis
E fico a sonhar
Como será na verdade
O encanto do seu olhar

Fito o Sol de frente na alvorada
No ocaso e ao meio dia
Corro o risco de cegar
Para tentar perceber
Que cor é a dos seus cabelos

Pressinto na Lua prateada
A tez da sua pele nua
Sem conseguir tacteá-la

Inebrio-me com a fantasia
De sorver na doçura das tâmaras maduras
A formosura dos seus seios

Dela me acerco
Tentando inalar o seu perfume
Corro o risco de morrer
Às mãos dos guardas do sultão

Enlaço com ternura a dócil gazela
Que passeia na cerca do seu jardim
Imaginando a graciosidade do seu porte
Mas ela foge de mim
Espavorida
Sem rumo ou norte

Como posso estar certo de que me sorri
Se a burca de seda celeste
Que lhe tapa o rosto
Também lhe cobre todo o corpo
E o seu sorriso não tem som?


Resta-me ler o tom do seu pensamento
No esvoaçar do véu
Que a sua mão levanta ao vento do céu
E fico esperando que por fim
Para minha gloriosa felicidade
Amorosa se dispa para mim

Ela mesma se libertará da burca terrena
E serena me apontará
O caminho da eternidade.

Algures no Deserto do Sahara)
 xiii-viii-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-vii-mulher.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO VI ? Mil saudades e uma só solidão - 20Jul2018 11:29:00




Areia!

Montanhas de areia me envolvem
Trazidas pelo vento suão
Cobrem-me e descobrem-me
De mil saudades e de uma só solidão

Nada vivo se vê por aqui!
Uma ave
Uma flor
Um réptil
Um roedor
Um insecto que seja
Apenas a morte tenta sua sorte

Dentro mim, Huri
Ardeja um amor mais forte
A Estrela Polar brilha mais a norte
És tu que ma chamas em surdina

Essa luz pequenina
Que bruxuleia no Firmamento
Batida pelo vento
É a chama da fogueira saudade
Que arde e nos queima
A ti e a mim

Só assim me mantenho vivo
E sobrevivo
Ao frio
À fome
À sede
Ao calor abrasador
À saudade
E à má sorte
Neste império da morte

(Algures no Deserto do Sahara)
 i-v-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-vi-mil.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO V - Soldado de fortuna - 19Jul2018 14:53:00



Obscuro soldado da fortuna
No verbo e no verso breve
Salta de noite
No escuro
E desce planando
Leve
Como pluma

Nada saber de ninguém
Nem de si
É seu fadário

Ninguém pergunta a um mercenário
Seja lá o que for
Ou o que tiver sido
Apenas se lhe pede que se mantenha de pé
Mesmo se vencido

Apenas se questiona o seu valor
No campo de batalha 
Que poderá bem ser
A sua mortalha

Rasga a atmosfera
Célere
Enquanto cogita

A Terra o espera
A loucura o toma
Grita de dor

Voga no plano astral

Apenas reentra no Universo
E recupera a sanidade mental
Se escreve
Versos de amor

(Algures no Deserto do Sahara)
 xxx-iv-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-v-soldado-de.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO IV - Dança na minha mente a dança do ventre - 17Jul2018 14:28:00




Dança na minha mente
A dança do ventre
Huri

Amanhã entro em combate
Já o coração me bate
A rebate

Como os sinos da nossa aldeia
Que tocam a sinais
Tinindo dores e ais
Sempre que alguém morre
Quando quem vive
Embora só na ideia
É quem mais sofre

Porque te chamo eu, assim, de Huri
Se não és muçulmana
E nenhum profeta
De ti me fez presente
Estando eu ausente?

És transmontana linda
Ridente
Como a romã
Que pela manhã sorri
Com mil dentes de diamante

Amanhã entro em combate
Já o coração me bate
A rebate
Dança na minha mente
A dança do ventre
Huri

É o teu útero que eu quero ter
Para em ti renascer 
Se acaso morrer

Não neste deserto
Antes nesse oásis daí
De ti
Bem mais perto

(Algures no Deserto do Sahara)
 xxvix-iv-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-iv-danca-na.html

UM LIVRO ABERTO NO DESERTO III - Miragem - 16Jul2018 11:50:00





Um mar de areia nos envolve
Em toda a jornada

O calor sufoca

Dunas
Mais dunas
Mais nada

Depois a sede
Adrede
Ardente
O suor
O estertor

Água!
Os meus lábios febris
Pedem água

Vejo oceanos além
Além
E além

E a imagem meiga de minha mãe
A acenar

Apetece-me correr
Saltar
Para a abraçar
E me dessedentar

Sou eu que sigo na dianteira
E se algum cair
Terei que parar o levantar
Não posso desistir

Se eu desisto
Outros desistem 
E todos acabamos por perecer


(Algures no Deserto do Sahara)
 xxix-iv-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/um-livro-aberto-no-deserto-iii-miragem.html

LIVRO ABERTO NO DESERTO II - Minha doce huri - 15Jul2018 00:21:00






A minha cabeça pende
A meio da vigília
Vencida pelo sono e pelo cansaço
És tu, minha doce huri
Quem a afaga
E a reclina no seu regaço

És tu que te deitas a meu lado
Desnuda
Em sonhos súcubos
De airoso encantamento

Ouço o teu chamamento mavioso 
A pedir-me que regresse à Pátria
Onde me esperam os teus braços
E fico saudoso

Desperto
Neste deserto sem fim
Sem te encontrar

Não huri
Não pode ser assim
Prefiro morrer
Morrer por ti
Aqui

Foi aqui que eu vim
Te procurar


(Algures no Deserto do Sahara)
 xxviii-iv-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/livro-aberto-no-deserto-ii-minha-doce.html

LIVRO ABERTO NO DESERTO I - Vigília - 12Jul2018 22:24:00







Que vigilo eu?
No topo de uma duna
Onda estática de um mar imóvel
Agora que o vento amainou
E no céu esmeralda mil luzeiros cintilam
Tão suavemente 
Que nem dá para fazer bulir um grão de areia

Apenas uma ideia
Oportuna
Serpenteia em minha mente

Os soldados ressonam
Enfiados nos sacos cama
Ouço bater os seus corações

Não sei quem são
Nem donde são
Só os conheço daqui
E só eu sei que como eu
Não vivem de ilusões
Vão para lado nenhum
Para onde o destino aprouver

São a lama da raça humana
Sem pátria, nem lar
Talvez fugidos do amor de uma mulher
Só lhes dói a saudade

São flores de Lotus
Que germinam na bruma
Como eu
Pura espuma de espiritualidade

Que vigilo eu?

(Algures no Deserto do Sahara)
 xxviii-iv-mmix




Fonte: http://henriquepedro.blogspot.com/2018/07/livro-aberto-no-deserto-i-vigilia.html

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